Curso da Polícia Civil diferencia traficante de usuário por cor da pele

No dia 22 de setembro de 2008, o jornal Extra publicou um artigo que estampava o conteúdo de uma lição do curso de atualização do programa Delegacia Legal, da Polícia Civil. Divulgado pelo síndico das delegacias, o curso era obrigatório para todos os policiais lotados em delegacias legais do estado. A proposta era promover uma “reciclagem” dos agentes. E para reforçar o compromisso dos policiais, a presença no curso, com uma boa media das notas, lhes garantia uma gratificação de R$500,00. Com salários precários, os policiais se esforçavam para não perder as vagas do programa.

O módulo destacado no artigo era “Trafico de Entorpecente I”. O título do quadro era: “os envolvidos”. Abaixo um fluxograma ditava o raciocínio. No canto esquerdo, o símbolo da polícia civil é seguido do termo: “repressor”. No canto direito, um desenho de um homem branco de cabelos loiros com os olhos retos é seguido do termo: “usuário”. No centro e acima, como que formando a pedra angular do diagrama explicativo, um desenho de um homem negro com o olhar desviado para trás, fazendo “cara de mau” , é seguido do termo: “traficante”. Preenchendo o espaço entre as três figuras, uma pirâmide com desenhos de seringas, cigarros de maconha e pedras de crack é seguida do termo: “drogas”. No topo do quadro, a ementa da aula explica:

A inter-relação entre as três personagens principais do tráfico de entorpecentes pode ser ilustrada pelo gráfico abaixo. Qualquer ação desenvolvida em um dos vértices do triângulo imediatamente se reflete nos demais, caracterizando várias reações previsíveis que podem explicar crimes praticados pelos traficantes, se analisados criteriosamente.

Após elencar uma série de críticas formuladas por “especialistas” que denunciavam o “racismo expresso” do quadro, o artigo conclui com o subchefe da Polícia Civil, delegado Ricardo Martins, explicando que o curso havia sido formulado na administração passada e prometendo que ele sofreria “atualizações” em breve. O programa já funcionava há muito tempo. Implementado no ano de lançamento do Caveirão, sua proposta era qualificar os agentes para modernizar a corporação, reforçando as ordens e resgatando as técnicas da academia policial. No caso do quadro, a proposta era explicar a “dinâmica lógica” do “trafico de entorpecentes” para treinar a capacidade dos soldados de calcular as potenciais reações criminosas do inimigo de pele negra que deve ser reprimido. Uma lição e tanto.

Fonte: Campanha Nada Deve Parecer Impossível de Mudar