Neurocientista comenta efeitos cerebrais da maconha e questiona proibição

 

Neurocientista que estuda os efeitos da droga no organismo esclarece tópicos polêmicos que envolvem o debate sobre o consumo da maconha e expõe sua opinião sobre o tema

Os últimos meses foram agitados na vida do médico João Menezes, 42 anos. Neurocientista com direito a pós-doutorado, ele é ainda professor adjunto na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e, enquanto estuda sobre os efeitos do consumo de maconha no cérebro, é pego de surpresa por teses de outros profissionais proibicionistas, que “atrasam o debate” acerca do tema. “Proibicionismo é um ato político, preconceituoso, não tem a ver com saúde”, defende João, que milita pela liberdade e tem participação no documentário “Cortina de Fumaça” (2010), dirigido por Rodrigo Mac Niven.

No mês passado, uma pesquisa trouxe números alarmantes sobre o consumo de maconha. Mil Neozelandeses foram observados, para análise comparativa de Quociente de Inteligência (Q.I.), dos 13 aos 38 anos. O resultado indicava que após o uso regular da droga, este índice sofria um déficit de oito pontos ente os que começaram a fumar quando adolescentes e mantiveram o hábito aos 20 e 30 anos. OS QUE PARTICIPARAM DO ESTUDO E NÃO ERAM FUMANTES TIVERAM AUMENTO DE ATÉ UM PONTO. O QUE ISTO REPRESENTA?

Do jeito que estas pesquisas chegam aos leigos, estes dados tendem a ser mais alarmantes do que deveriam. Não sei como foi feito este estudo, mas posso dizer que o uso regular da maconha por adolescentes, principalmente menores de 15 anos, pode se tornar, sim, problemático. Não só por causa da droga, mas pelas condições em que vive este adolescente. É complicado, porque por mais que eu fosse condescendente com a maconha, por exemplo, um filho meu não conseguiria fumar com facilidade aos 15 anos. De qualquer maneira, uma pessoa que está sob o efeito da maconha fica criativa, mas não aprende. Um adolescente está em constante aprendizado das coisas básicas da vida e fica com suas capacidades cognitivas atrapalhadas pelo efeito da droga. No caso deste teste do Q.I., eu não sei como foram feitas as análises, mas é claro que estas crianças não se desenvolveram bem na infância, já que estavam entorpecidas. De repente isto pode ter afetado, mas é difícil dizer sem analisar os gráficos. Alguns estudos dizem que se pessoas com menos de 18 têm contato prolongado com a droga, têm maior probabilidade de desenvolver esquizofrenia, mas ainda assim é difícil dizer.

POIS É. NO INÍCIO DO MÊS FOI PUBLICADA UMA PESQUISA PELO INSTITUTO NACIONAL DE POLÍTICAS DE ÁLCOOL E DROGAS (INPAD), DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO (UNIFESP), dO PROFESSOR RONALDO LARANJEIRA, QUE ALERTAVA SOBRE O NÚMERO DE USUÁRIOS NO PAÍS: 1,5 MILHÃO CONSUMIRIA DIARIAMENTE MACONHA. MAiS UM DADO IMPORTANTE É QUE OS ENTREVISTADOS DISSERAM TER ENTRADO EM CONTATO COM A MACONHA MUITO JOVENS, E ISSO AUMENTARIA A CHANCES DE “SURTOS PSICÓTICOS” NO FUTURO.

Eu não digo surto psicótico, pois os laudos anteriores a essa pesquisa não falavam isso, mas correlacionavam a droga à esquizofrenia em casos de abuso, e não uso precoce. Não se pode dizer, por exemplo, que a maconha causa esquizofrenia. Ou se, por exemplo, a pessoa seria esquizofrênica e só teria seu surto antecipado pelo uso abusivo da droga, o que é pior, porque quanto mais cedo, pior. Agora, é comum observar na esquizofrenia uma diminuição das capacidades cognitivas. Outros trabalhos que avaliaram capacidades cognitivas em adultos não observaram qualquer alteração.

O SENHOR PODERIA RESUMIR OS EFEITOS DA MACONHA NO CÉREBRO? COMO UM USUÁRIO SE SENTE AO EXPERIMENTÁ-LA?

O uso da cannabis produz uma sensação de euforia e relaxamento, altera a percepção em geral, intensifica experiências sensoriais como o paladar, visão de cores e formas, apreciação da natureza e apreciação musical. Usuários apresentam alterações negativas na memória de curta duração, diminuição da coordenação motora, em especial de tarefas novas, e redução do tempo de reação enquanto intoxicados. Outros efeitos negativos podem ocorrer como aumento da ansiedade e ataques de pânico, mas isto em geral ocorre em doses mais altas de THC. Em mais baixas, pode ser encontrado até um efeito oposto, ansiolítico. Pode ocorrer aumento da frequência cardíaca e boca seca. Um efeito muito comum é o aumento da sensação de fome, que, inclusive, pode ter aplicações médicas para distúrbios de perda do apetite e doenças consumptivas como Aids e câncer. Para outras informações, eu sugiro a consulta aos trabalhos de pesquisadores brasileiros como Elisaldo Carlini, Antonio Zuardi e Jose Alexandre Crippa.

OUTRO PROBLEMA ENCONTRADO, DE ACORDO COM O PROFESSOR, é SOBRE O ÍNDICE DE DEPENDENTES, CERCA DE 37%.

Neste sentido, o trabalho do Laranjeira é insuficiente. Dependência não se define por questionário, ela depende do julgamento do clínico. Não existe critério objetivo rígido para definição de dependência. A Associação de Psiquiatria Americana (APA) produz um manual de diagnóstico (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), sendo o último o DSM IV, que estabelece sete ou oito critérios semiobjetivos para averiguação da dependência. Eles são avaliados pelo psiquiatra, através de perguntas aos pacientes. Se der três ou mais positivos a pessoa pode ser considerada dependente, o que ainda não é determinante. O julgamento é do psiquiatra, e é subjetivo, já que ele valora as respostas de acordo com o histórico de cada um. Laranjeira é psiquiatra e sabe disso. “Uso problemático” é diferente de “dependência”.

ENTÃO O SENHOR ACHA QUE ESTE ÍNDICE NÃO INDICA UM PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA, QUE TENDE A SE AGRAVAR?

De forma alguma. O uso da cannabis pode causar dependência psicológica em uma pequena proporção de usuários, estimada atualmente em 9% dos usuários. Isto se você aceitar os critérios para esta classificação. Independente da aceitação destes critérios, este índice é bem menor que o encontrado para o risco de dependência em usuários de álcool, por volta dos 17% (32% para nicotina, 23% heroína, 17% cocaína). Não existem casos de morte comprovados por uso de maconha. No entanto, os principais gastos do setor de saúde no Brasil têm sido para remediar a violência, em boa medida proveniente da guerra às drogas. É bom repensar esse conceito.

DE QUE FORMA A DESCRIMINALIZAÇÃO PODE AJUDAR?

Até o momento, na maior parte dos países em que políticas de redução da repressão ao uso de maconha e outras drogas foram aplicadas, resultaram na diminuição do consumo, sendo Portugal o melhor exemplo da atualidade. Além disso, na Nova Zelândia, país em que o uso proporcional de cannabis é um dos mais altos do mundo, por volta dos 40% da população, o impacto sobre o sistema de saúde é baixo, na ordem de 0,2% dos custos totais, isto comparado ao álcool e tabaco, 7% e 3%, respectivamente.

Fonte: O Fluminense