Estudantes da UFES que protestavam por moradia são agredidos dentro da Universidade

Estudantes da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) que protestavam por moradia estudantil foram surpreendidos por homens da vigilância interna da universidade que os expulsaram do campus de Goiabeiras. A ação foi entre o fim da noite desta terça-feira e madrugada desta quarta-feira. Os alunos denunciam que foram agredidos e que tiveram pertences tomados e barracas destruídas. Alguns ficaram somente com a roupa do corpo, e sem ter onde dormir.

Dez estudantes estavam acomodados no prédio conhecido por Elefante Branco, no Campus de Goiabeiras, quando os seguranças chegaram, por volta das 23h40. Eram 15 ou 20, contaram os alunos, e alguns usavam capuz, portavam armas de fogo e canivetes, além de roupas e carros descaracterizados.

Expulsão
Os vigilantes admitiram ter expulsado os alunos por “ordem do chefe”, e não negaram as agressões. A ação não foi de reintegração de posse, a exemplo do que ocorreu no último domingo (16), quando os alunos tiveram de deixar a área da biblioteca central por determinação da Justiça. Havia riscos de incêndio e, portanto, ameaças ao acervo.

Foto: Divulgação e Paulo Rogério.

Divulgação e Paulo Rogério

Estudante com marcas atribuídas às agressões por parte de seguranças da Ufes. Foto mostra o local onde os manifestantes estavam acampados

Um dos estudantes foi agredido com golpes de cassetetes nas costas. Ronan Aguiar de Freitas, estudante de audiovisual, afirma ter implorado para que seus objetos de trabalho fossem devolvidos.

“Eu levantei os braços e implorei quase chorando, pedindo ao cara para deixar que eu pegasse minha bolsa porque eu preciso trabalhar amanhã e meu material de trabalho está dentro dela. A maioria do pessoal já estava dormindo. Tinha duas pessoas fora da barraca conversando e eu tinha acabado de entrar para dormir. Aí eles chegaram falando que a gente tinha que sair. E a gente pedindo mandado, a ordem judicial, e ele falando que não tinha”

Reforço
A 0h46 desta quarta-feira, a segurança estava reforçada no portão de acesso à Ufes. De dentro do campus, quatro vigilantes acompanhavam atentamente a movimentação dos estudantes expulsos, do outro lado da Avenida Fernando Ferrari. Um deles se identificou como Paulo. Um outro, identificado no uniforme como Freitas, confirmou a ordem para remover os manifestantes.

“Eles estão reivindicando moradia e acham que a culpa é da gente. Não é da gente. A gente recebe ordens. A ordem veio do chefe aí, do chefe geral. Tiramos eles com ordem do chefe. Sobre o carro não sei de nada. Vocês tem que ver com o chefe da segurança mesmo”, disse.

Pró-reitora
A pró-reitora de gestão de pessoas, Maria Lúcia Casate, foi chamada pelos estudantes. Já passava de uma da manhã quando ela ouvia atentamente os desabafos dos alunos sobre a maneira com que foram colocados para fora da universidade. Ela se mostrou preocupada com o local onde os jovens passariam a noite, e prometeu um posicionamento mais amplo da Ufes em uma reunião marcada para às 11 horas desta quarta-feira (19), entre estudantes e Reitoria, para discutir a moradia estudantil.

Com marcas nas costas atribuídas às pancadas recebidas, o estudante José Paulo Bernardes foi até a delegacia registrar um boletim de ocorrência. “O chefe de segurança, o senhor Aníval, chegou, com outros seguranças, com facas nas mãos para cortar as cordas das barracas e com cassetete quebrando as astes delas, batendo, dando cacetada, apontando arma para a cabeça dos estudantes. Eu saí correndo quando eles me acertaram. Consegui pular a grade da universidade para chamar alguém para ver o que estava acontecendo”, conta.

Delegacia
O jovem foi à delegacia levado pelo advogado André Moreira, que também foi até as imediações da Ufes acompanhar o caso. Para ele, estão claros abusos e ilegalidades cometidos na ação. “Não há justificativa para o que aconteceu. A solução dada foi a pior possível. Fugiu da lógica da universidade, que é o diálogo. Foi para a violência reconhecida e declarada. Agora a gente vai ter que levar isso para a Polícia Civil e para o Conselho de Direitos Humanos. É o que dá pra fazer agora”, colocou.

Estudantes estão acampados na Ufes desde o dia primeiro de agosto, em protesto contra a falta de espaço para moradia estudantil na instituição. Eles também reclamam do valor do auxílio-moradia pago aos alunos de baixa renda. Os R$ 200 não são suficientes para pagar aluguel. O número de pessoas que dorme no campus varia diariamente. No início do movimento, 17 barracas chegaram a ser montadas e cerca de 50 alunos aderiram ao movimento.

Após serem postos para fora da universidade, eles resolveram seguir, em grupo, a 1h28, para a casa de amigos para que pudessem passar a noite. Mochilas, documentos, roupas e barracas dos estudantes ainda não foram localizados.

 

Fonte: Redação Multimídia