A moral psiquiátrica ; por Vladimir Safatle

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Há alguns meses, as livrarias, enfim, receberam a última versão do “Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5)”.

Ainda sem tradução em português, o “Manual” foi objeto de críticas virulentas vindas até mesmo de psiquiatras que trabalharam em versões anteriores dele, como Allen Frances. As acusações giravam em torno da verdadeira “psiquiatrização da vida cotidiana” que a profusão de categorias clínicas produzidas pela nova versão do “Manual” parece acarretar.

Longe de ser uma discussão que interessa apenas profissionais da área de saúde mental, a querela em torno do DSM-5 é uma questão social da mais alta importância, pois define como valores sociais travestidos de normalidade médica são naturalizados. Ela não pode ser esquecida.

Tomemos, a título de ilustração, um exemplo. Quem abrir a página 667 da versão inglesa do DSM-5 encontrará o peculiar “transtorno de personalidade histriônica”.

Seus oito critérios diagnósticos, que definem se alguém tem ou não o referido transtorno, comportam as seguintes pérolas: sente-se desconfortável em situações nas quais não é o centro das atenções; tem comportamento inapropriadamente provocativo e sedutor; usa constantemente a aparência para chamar a atenção; é sugestionável; tem um estilo de fala excessivamente impressionista; tem expressões exageradas de sentimentos e considera as relações mais íntimas do que realmente são.

Talvez você pergunte se, afinal de contas, esses são critérios clínicos de definição de transtornos ou simplesmente critérios morais sobre comportamento, que ten- tam esconder sua verdadeira natureza.

Afinal, qual o marcador para definir “estilo de fala impressionista”, “expressões exageradas de sentimentos”, a não ser o que o assentimento social e seu psiquiatra entendem como tal? Mas, se este for o caso, não estaria o psiquiatra a dar lugar à figura do bom e velho educador?

De fato, não é difícil perceber como, nesses “critérios diagnósticos”, encontram-se todos os clichês crassos sobre o comportamento feminino que assombravam a antiga categoria clínica de “histeria”, com sua “feminilidade teatralizada”: a verdadeira base para o dito transtorno de personalidade histriônica.

Alguém poderia imaginar que tais “personagens morais” a habitar o mais avançado tratado de psiquiatria, resultado de anos de trabalho árduo e caro, não são simples desvios de rota a serem expurgados nos próximos anos, mas sintomas que mostram a verdade de todo o projeto.

Vladimir Safatle é professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo).

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