“Marchinha da Maconha” promete agitar o carnaval de rua no Rio de Janeiro

Nos anos 60, históricos compositores como Braguinha e Jorge Goulart trouxeram ao Carnaval duas marchinhas cantadas até hoje em tom de brincadeira, mas que na época tinham a missão também de popularizar temas antes vistos como tabus pela sociedade. Enquanto o primeiro compôs “Garota Biquini”, bem antes de Leila Diniz posar grávida com a micro-peça e escandalizar as comportadas banhistas de Ipanema, a “Cabeleira do Zezé” também desafiava os conservadores ao mostrar que a “Cabeleira do Zezé”, no caso, um garçom de Copacabana, não necessariamente era sinal de homossexualidade.

Guardadas as devidas (e pretensiosas) proporções, é o mesmo intuito da Marcha da Maconha, canção composta por Henrique Cazes, e uma das dez finalistas do Concurso Nacional de Marchinhas Carnavalescas 2014, tradicional disputa promovida pela Fundição Progresso, no Rio de Janeiro.

“Carnaval é brincadeira, e quando você faz brincadeira com temas que estão sendo discutidos nas rodas, nas escolas, você consegue mobilizar mais as pessoas. E o Carnaval tem uma característica que é se uma espécie de câmera de ‘desencaretamento’ da sociedade”, explicou o compositor, em entrevista ao Terra.

Antes do presidente uruguaio, José Mujica, aprovar junto ao seu parlamento a produção e comercialização da erva para os residentes no país vizinho, Cazes viu no tema das marchas da maconha espalhadas pelo país, ainda em 2012, a chance de trazer o tema para uma discussão mais profunda dentro da sociedade brasileira. Naquele ano, porém, passou o Carnaval lecionando música brasileira na Universidade de Toronto, no Canadá. Mas como ninguém ainda havia criado uma marchinha sobre a cannabis sativa, não perdeu a oportunidade desta vez.

“Fiquei surpreso e percebi que a coisa veio na hora certa. Está não só se falando muito nesse assunto, mas há movimentações de grupo da sociedade civil para se trabalhar firmemente para que a liberação maconha aconteça. Não tem mais essa de erva do diabo ou porta de entrada (para outras drogas)”, opinou.

A letra foi escrita de supetão, “sem pedaço de papel, nem nada”, e em tom bem humorado, e traz versos como “Desberlota aí/Que eu enrolo pra você/Depois só falta um canto/Sossegado pra acender”. “O presidente do Uruguai fala uma coisa que é muito sábia: ‘eu não estou legalizando nada, eu estou simplesmente regulando um mercado que já existe’. Não há mais motivos no século 21 para se manter uma hipocrisia desse tipo, esse resquício de uma propaganda enganosa”, disse.

Cazes explicou ainda que “eu particularmente não gosto, muito embora conviva com ela há muitos anos. Não é uma coisa que eu curta a sensação. Eu produzi um disco que se chama “Cachaça dá Samba”, e eu não tomo cachaça, porque não me cai bem”. Mas afirmou que se a tal Marcha da Maconha “servir para que o tema seja naturalizado, já é uma grande felicidade para mim, quero colaborar para que esse assunto não seja mais jogado para o fundo do tapete”.

O compositor, que já participou do concurso em outras duas oportunidades e concorreu com outras 853 marchinhas antes de ter sua composição entre as dez finalistas, ainda utiliza na letra palavras como “jererê”(alcunha antiga para a maconha) e “marica” (cachimbo para fumar a erva), ou seja, expressões de antigamente que os mais velhos entenderão.

Até a final do concurso, no dia 16 de fevereiro, ele espera que o seu vídeo no YouTube seja ainda mais divulgado (já tem mais de 8 mil visualizações) e não se importa se a sua marchinha for deixada de lado na transmissão da TV Globo – o programa Fantástico sempre faz entradas ao vivo com as três melhores escolhidas naquela noite, antes do anúncio final.

“Você colocar dessa maneira divertida e leve para esse assunto, é uma coisa positiva. Naturaliza o tema. Não é algo para as pessoas ficarem fazendo ‘bicho de sete cabeças’. Libera esse troço e pronto”, finalizou.

Fonte: Terra

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