Caps Lima Barreto, Rio de Janeiro, reivindica melhorias

Carta aberta à sociedade do município do Rio de Janeiro

 caps

Viemos por meio desta carta relatar a situação caótica que o nosso serviço, Caps Lima Barreto, vem enfrentando desde janeiro de 2012, após mudança da casa onde estávamos instalados. Entretanto, antes de descrevermos os problemas que temos enfrentado, gostaríamos de apresentar o nosso CAPS.

Lima Barreto, situado na AP 5.1, está em funcionamento há 12 anos. Atendemos um território com população de 700 mil habitantes (censo de 2006), contrariando à Portaria 336 de 19/02/2002 Art. 4.2, que cita que os Caps II devem atender a uma população de 70 mil a 200 mil habitantes. Portanto, deveriam existir pelo menos mais 2 Caps II nesta área. Esta AP abrange a área de Deodoro à Santíssimo, sendo que uma média de 410 pacientes/mês fazem tratamento no CAPS.

Estávamos instalados em uma casa na Rua Tomás de Aquino, 67 que vinha atendendo de forma razoável as nossas necessidades. Porém, em novembro de 2011 fomos informados que nos mudaríamos para o CMS Alexander Fleming. Diante disto, a comunidade do CAPS Lima Barreto (o que inclui usuários, familiares e profissionais) se posicionou contra tal mudança, devido ser esta uma área de difícil acesso e frequentes conflitos urbanos.

Ao CAPS foi oferecida pela gestão da CAP 5.1 uma segunda opção nas dependências da Policlínica Guilherme da Silveira (PAM Bangu) com as condições de que o espaço físico fosse adaptado, dentro do possível, às necessidades do CAPS. Desde que estamos no PAM Bangu a única adaptação foi a instalação de uma linha telefônica, que demorou 08 meses para acontecer.

O CAPS tem funcionado atualmente nas seguintes condições:

– Não há cozinha e refeitório impossibilitando o fornecimento das refeições diárias para os pacientes. Mais uma vez, neste caso, observamos um desrespeito à referida Portaria que afirma que “os pacientes assistidos em um turno (4 h) receberão uma refeição diária; os assistidos em dois turnos (8 h) receberão duas refeições diárias.” Art. 4.2.1 g.

Foi aventada a possibilidade de virem refeições prontas de outro lugar, mas as dificuldades e impedimentos foram enormes (Atualmente foi cedido um espaço no PAM Bangu para um refeitório, mas há necessidade de adequação deste espaço com a colocação de portas e janelas, manutenção das instalações elétricas e telhas, para acabar com as infiltrações).

-Não existe espaço adequado para a realização de oficinas terapêuticas, grupos, reuniões e supervisões. Tais atividades acontecem em espaços insuficientes para o número de pessoas que frequentam as atividades coletivas ou então em um espaço externo, sem cobertura, muitas vezes em sol de mais de 40 graus expostos a vento e frio.

– Os nossos móveis atuais foram todos reaproveitados de outros serviços que fecharam ou ganharam móveis novos.

– Não há número de salas de atendimento suficientes. Há apenas duas salas que  dispõem de espaços minúsculos e completamente inadequados para atendimento de usuários, especialmente aqueles em surto ou agitados. Além disso, os técnicos e usuários têm de aguardar uma modalidade de atendimento para executar outra. Ex: aguardar o término do Pronto atendimento para iniciar uma consulta e muitas vezes de casos que demandam urgência.

– As oficinas há anos funcionam com recursos mínimos, providenciados pelos próprios profissionaispois até o momento não há recurso financeiro do CAPS para isso.

– Sabemos que a função da guarda patrimonial não é retaguarda em casos de violência contra profissionais. Porém, sabemos por experiência que a presença de um profissional como este, dá um suporte nestas situações e ainda uma sensação maior de segurança. O Lima Barreto não conta com guarda patrimonial diurno.

– Também não dispomos de um coordenador técnico desde jan/2013 o que dificulta a dinâmica de funcionamento do nosso serviço.

Mesmo com as imensas dificuldades que o Lima Barreto vem enfrentando, vínhamos sustentado várias e importantes atividades que são mandato de um CAPS, tais como:

Acolhimento diário Grupo de recepção.

Atendimentos psiquiátricos, psicológicos, de assistência social, musicoterapia, terapia ocupacional, enfermagem e etc.

Visitas Domiciliares, passeios culturais e de lazer.

Oficinas diversas: Desenho, Argila, Artesanatos variados, Fuxico, Auto-cuidado, Leitura, Horta e etc.

Projeto de Desinstitucionalização: vários pacientes atualmente internados e que devem voltar para suas famílias quando possível ou para moradias assistidas, RTs ou Transinstitucionalização. Abrange acompanhamento dos pacientes internados e a seus familiares. Atualmente nos foram passados 51 usuários do nosso território de abrangência.

Visitas semanais ao Hospital Jurandir Manfredini e aos demais hospitais sempre que necessário. Constante contato com os vários dispositivos da rede e universidades.

Participação na supervisão de território do eixo Bangu e do eixo Realengo.

Apoio a Residências Terapêuticas: Atualmente temos uma delas em funcionamento. Uma segunda que estará iniciando suas atividades; uma terceira que também iniciará suas atividades em breve e futuramente uma quarta. As Residências serão assistidas também pela equipe de seguimento.

O CAPS entende que precisa trabalhar para fora de suas portas e atua com atividades abertas aos familiares de usuários e também de toda comunidade como Futebol, Coral, Brechó e Parceria com a Academia Carioca. Além, disso, desenvolve vários projetos importantes:

-“Mãos que tecem a rede da Zona Oeste”: corte e costura de bolsas. Aberto a toda a rede.

-“Bolsa usuário”: uma das formas do usuário ingressar ou voltar ao trabalho formal ou informal.  Supervisão de usuários que foram inseridos em mercado de trabalho formal (Supermercados Guanabara, WalMart e Empresa JAMEF).

“IFRJ Mulheres Mil”: Com pacientes e familiares do CAPS, para formação de artesãs.

 -“PET- saúde”: Três oficinas terapêuticas (Música, Argila e Horta) que objetivam a geração de renda dos usuários. São realizadas com a participação de estagiários do IFRJ.

 – “É feito de Papel”: Outra parceria com o IFRJ para promover oficina de esculturas de papel marche.

“Projeto Ajuda Mútua”: Tem como objetivo discutir as questões de Saúde Mental em geral. Os participantes são usuários da rede.

Apesar de todas as atividades descritas, o CAPS não tem podido cumprir com seu papel de oferecer um tratamento intensivo, diário, pois não havendo refeições e nem espaço físico adequado para a convivência, os usuários não podem permanecer na unidade por muito tempo, ou seja, o principal tratamento de um CAPS não tem sido realizado com a qualidade que gostaríamos, acarretando a piora dos quadros, o aumento de internações psiquiátricas e a quebra do vínculo terapêutico.

 E para piorar nossa situação, ultimamente, além das dificuldades descritas acima, temos convivido diariamente nos últimos dois meses com a falta de água no nosso serviço, gerando condições higiênico-sanitárias insatisfatórias no estabelecimento como a falta de água no banheiro, ausência de limpeza adequada do espaço, e mesmo ausência de água para funcionários, usuários e familiares beberem. A Superintendência de Saúde Mental bem como a coordenadora da Área 5.1, Luciana Cerqueira estão cientes destes problemas, uma vez que em 16/04/02013 enviamos uma carta de teor semelhante à essa, porém cerca de um ano depois pouco foi feito para nos ajudar.

Entendemos mais este problema que estamos enfrentando literalmente como a “gota d’água”  e pedimos a ajuda dos trabalhadores de Saúde Mental de diferentes Caps, usuários, familiares e sociedade em geral para que possamos juntos construir soluções para os problemas identificados que visem a oferecer melhores condições de trabalho para que os usuários possam efetivamente se beneficiar deste tratamento.

Vemos com satisfação a abertura de vários novos CAPS em nosso município e sabemos o quanto isto é importante, mas reinteramos que um CAPS da importância do Lima Barreto não pode mais ficar sem sua sede e assim não cumprir adequadamente seu mandato.

Sugerimos o aluguel de um espaço adequado para o CAPS de uma forma mais imediata e futuramente a construção de uma sede própria, em local de fácil acesso aos nossos usuários.No ano passado, sugerimos o espaço que foi cedido pelo Exército à Av. Santa Cruz 1550 – Realengo (onde já foi construído uma Clínica da Família na metade do terreno). Porém, não obtemos resposta quanto a possibilidade de nos instalarmos nesse local.

Atenciosamente,

Comunidade do CAPS Lima Barreto (usuários, familiares, profissionais e amigos).

 

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