Pânico Moral – O discurso das drogas na mídia

pm

Atitudes acerca de quais drogas são aceitáveis e quais devem ser proibidas é uma construção social que mudou – e ainda muda – consideravelmente no decorrer dos tempos. Não obstante muitos países hoje terem leis que regulam o consumo do tabaco em público, antes de 1970 o tabaco era largamente usado e amplamente carente de regulamentação. Por que a sociedade abraça certas drogas (e.g., cafeína, nicotina, álcool, certas drogas prescritas) e se engaja em uma “guerra” contra outras (maconha, peiote, entre outros)?

One therapy drug such as Prozac becomes a vast commercial success, while another, nicknamed Ecstasy, is laden with sanctions just as severe as those surrounding heroin, though there is little evidence that Ecstasy is any more or less harmful than Prozac […] One is proscribed, while its near chemical relation is prescribed, and quite lavishly. (JENKINS, 1999, p. 3)

mídia desempenha um decisivo papel no desenvolvimento das atitudes públicas em relação às drogas e seus usuários[4], especialmente ao borrar e modificar as fronteiras arbitrárias entre as drogas que consideramosmedicinal e aquelas que consideramos recreativas (ZILNEY, 2011, p. 22)[5]. É atento a motivos deste jaez que Eugenio Raúl Zaffaroni elenca as agências de comunicação social em seu rol de agências do sistema penal (2002, p. 19).

histeria circunjacente às drogas é uma característica que tem seguido a sociedade estadunidense por mais de duzentos anos, começando com o medo do álcool, no fim do século XVIII, e presente ainda nos dias atuais, com o temor acerca das drogas sintéticas (REINARMAN, 2008, p. 54-62). Ainda que com altos e baixos, desde 1960 amídia tem consistentemente promovido o medo às drogas e seus usuários, o que é um tópico político bastante seguro e cômodo para elas, já que não há nenhum “empresário moral” ou grupo político suficientemente organizado e poderoso com uma agenda “pró-drogas” para contra-argumentar esta mensagem de pavor[6].

Contudo, do ponto de vista sociológico e político-criminal, deve-se indagar e pesquisar se não é essa postura sensacionalista da mídia, de criação de pânico, que tem guiado as políticas públicas em relação às drogas, em detrimento da racionalidade com o que o fenômeno deveria ser pensado. “Misinformed about who uses drugs, which drugs people abuse, and with what results, we waste enormous sums of money. […] Federal drug enforcement, a $6 million expense in the 1960s, passed the $1 billion mark in the mid-1980s during Ronald Reagan’s presidency and more than $17 billion during Bill Clinton’s” (GLASSNER, 1999, p. 131).

Tudo isso resultou em uma abordagem conservadora, baseada na política de law and order, ao problema das drogas: por décadas, a esmagadora maioria das pessoas tem aceitado a lei penal como a única solução apropriada a esse problema, ao mesmo tempo em que as informações repassadas pela mídia escondemproblemas estruturais de pobreza, desemprego, ausência de saúde pública e educação, racismo e vários outros (ZILNEY, 2011, p. 22-23).

O compromisso da imprensa – cujos órgãos informativos se inscrevem, de regra, em grupos econômicos que exploram os bons negócios das telecomunicações – com o empreendimento neoliberal é a chave da compreensão dessa especial vinculação mídia – sistema penal, incondicionalmente legitimante […] Agora, na forma de uma deusa alada onipresente vemos uma criminalização que resolve problemas, que influencia a alma dos seres humanos para que eles pratiquem certas ações e se abstenham de outras […] A criminalização, assim entendida, é mais do que um ato de governo do príncipe no Estado mínimo: é muitas vezes o único ato de governo do qual dispõe ele para administrar, da maneira mais drástica, os próprios conflitos que criou. Prover mediante criminalização é quase a única medida de que o governante neoliberal dispõe […] Alguém se recorda da última vez […] em que a promulgação de uma lei criminalizante foi objeto de crítica pela imprensa? Também aqui pouco importa que a criminalização provedora seja uma falácia, uma inócua resposta simbólica, com efeitos reais, atirada a um problema real, com efeitos simbólicos: acreditar em bruxas costuma ser a primeira condição de eficiência da justiça criminal, como os inquisidores Kraemer e Sprenger sabiam muito bem. (BATISTA, 2002, 273-274)

Além disso, como nos lembra Radford: “News events don’t just come to be show on television on their own; there are many steps involving judgment, selection, and interpretation between the actual, objective event and the version of it that the audience views or reads.” (2003, p. 66). Nem tudo aquilo que é reportado na mídia é importante e nem ela reporta tudo aquilo que de fato o é. O público, entretanto, geralmente acredita que as histórias significativas são reportadas e, no que se refere a assuntos ligados ao crime – especialmente na relação entre droga e crime –, a maior parte das pessoas que se informa pela grande mídia crê que esta fornece informações suficientes para que elas entendam a complexa dinâmica que lhes é apresentada (ZILNEY, 2011, p. 23). Não é necessário lembrar que isso é absolutamente impossível.

A mídia agrupa em pequenas notícias questões que são extremamente complexas, às quais os cientistas (sociólogos, psicólogos, juristas, criminologistas, médicos, etc.) se debruçam durante anos a fio[7].

What the public is often left with is a misunderstanding of the complexities of drugs, yet a firm belief that we are entirely informed. Ask anyone you know their opinion about drugs and crime, and each and every one of them will have an opinion about the nature of the drugs-crime connection […], and likely an even stronger view about how to effectively “solve” this problem! (ZILNEY, 2011, p. 23)

Contudo, no que tais opiniões são baseadas, considerando que elas claramente não podem se basear nas escassíssimas informações com profundidade e contexto repassadas pela grande mídia?

A escassez de informações dotadas de um plano de fundo mais completo revela a inclinação que a mídia possui ao sensacionalismo. E isto não é mero acaso, mas sim parte da uma estratégia muito clara: ao alimentar o público com notícias sensacionalistas envolvendo celebridades, mortes grotescas, violência resultante de drogas, estupros contra crianças e outras tantas notícias que todos vemos cotidianamente, a população tende a se entreter e esquecer o que precisa ser feito a fim de se conseguir uma sociedade mais justa e solidária. Em outras palavras, a mídia serve à função de manter o controle social, ao prevenir as massas de demandarem por mudanças sociais significativas[8].

O uso pela mídia desse sensacionalismo e de vários prejuízos é imenso no que se refere às drogas: o númerode casos é exagerado; o dano potencial e atual causado pela droga, seja no indivíduo ou na sociedade, éaumentado; o foco é, sempre, na hipótese da “porta de entrada” – ou seja, de que aqueles que utilizam drogas “leves”, ainda que de maneira infrequente, irão fatalmente utilizar, no futuro, drogas mais “pesadas”, como a cocaína; asugestão de que o vício é quase imediato, assim que o indivíduo começa a se utilizar da substância ilícita, e adificuldade de se superar o vício é superestimada; a ideia de que uma droga popular em certa localidade irá inevitavelmente se tornar popular por todo o território do país, apesar da total falta de evidências científicas nesse sentido; as soluções jurídico-penais, em especial a dura criminalização e repressão, são – erroneamente – apontadas como as únicas soluções efetivas para a solução dessa “epidemia” (ZILNEY, 2011, p. 23). Essas “previsões”, como era de se esperar, jamais são acompanhadas de dados empíricos que a confirmem, salvo a opinião de determinados “especialistas” previamente selecionados, com opiniões sempre concordes ao discurso criminológico da mídia (BATISTA, 2002, p. 277-278).

Tais ideias sensacionalistas e preconceituosas tem se espalhado na mentalidade da população por décadas a fio, criando “pânico moral” – em larga escala – injustificado no seio da sociedade.

*Trecho do artigo de “A Influência da Mídia na Formação da Política de Drogas: O caso dos Estados Unidos da América” de Felipe Augusto Fonseca Vianna.

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