O que o feminismo pode ensinar ao antiproibicionismo?

feminista

*por Isabela Bentes

Foi publicado um texto em uma coluna no site do Hempadão, de autoria de Anna Rodrigues, intitulado de “Mulheres na pauta por Maconha na Brasa”, expressando o posicionamento de nós, mulheres, na luta antiproibicionista no Brasil. A proposta é iniciar uma série de desconstruções que colocam o papel da mulher em certas condições de forma naturalizada, consolidando posicionamentos que não refletem a totalidade do pensamento feminista.

Dessa forma, expresso aqui, inicialmente, que acho uma leviandade falar do papel de nós, sem refletir sobre o que o movimento feminista aponta e discute nesses aspectos, colocando a urgência de, mais do que nunca, reafirmamos nossas aproximações com esse setor historicamente oprimido pelo patriarcado, pelo sexismo e pelo machismo, tão impregnado dentro da sociedade capitalista.

De início, começo por apontar que a afirmação categórica de que a luta das mulheres, assim como o direito dos usuários, se restringem à busca do cumprimento dos direitos humanos, é tornar rasteira a demanda que o movimento feminista e antiprobicionista reivindicam para além de uma carta de princípios. O direito ao nosso corpo é sim uma das dimensões de uma problemática muito maior, e muito mais complexa, no que diz respeito ao papel da mulher nas instâncias de participação política, principalmente quando avaliamos a forma restrita e subjugada que somos submetidas cotidianamente nas mais possibilidades da vida social.

Para além disso, o ponto mais central é a afirmação categóricas que “nós mulheres somos todas Miss, marijuanas ou não” e de que “(…) A noção de humanidade de cada um estará em sua capacidade de conseguir enxergar as várias dimensões e saberes de como se colocar perante o que aprendemos e aperfeiçoamos no dia-dia. O Miss Marijuana é um incentivo a isto (…)”. Não, não somos todas Miss! Não queremos mais ser reduzidas a um esteriótipo que nasce dentro de uma sociedade desigual e opressora historicamente, que nos colocam num patamar em que se instrumentaliza a beleza e a sensualidade como símbolo de uma suposta emancipação e autonomia. Não é essa a nossa luta! Não falem em “nós mulheres” para defender uma projeto político supostamente emancipatório que nos colocam no mesmo patamar de uma planta que são veneradas, adoradas e consumidas. Não! Não é esse o papel que reinvidicamos em tantos anos de massacre sexista, não é sermos reduzidas às mercadorias de consumo.

A percepção é que há uma tendência forte dentro do movimento antiproibicionista de explorar o corpo feminino associada com a maconha que é , em certa medida, uma novidade, porém o que é dificultoso é a incapacidade de perceber todo essa contexto como uma situação de opressão, mas é visto como “ousado”, e é aclamado por todos. Ousadia tem outro nome! Ousar é empoderar as mulheres para que elas se aproximem do movimento de forma mais combativa, mais impositiva, se colocando politicamente num cenário que, querendo ou não, marginalizam-se as militantes, domesticam seus papéis, constrangendo sua atuação. Problema que  esse setor em específico (incluindo-se ai muitas mulheres que ainda precisam adquirir consciência de gênero) vêem muitas delas como um potencial captador de capital para fomentar a venda do nome de alguma mercadoria/produto. Isso nada mais é que  a transferência de uma ordem imposta sob nós, mulheres, para um formato “menos careta”, porém, não menos opressor.

Ser militante vai além de concursos de beleza, calendários com mulheres nuas/semi-nuas. O que acham que passam as mulheres ao enfrentar polícia pra organizar mobilizações políticas? O que acham o que é ser mulher e ouvir todos os dias que o espaço político não é para nós? O que acham de ouvir que o seu conhecimento, por discordar do outro, é fruto de quem você “comeu”? O que acham de ouvir que você serve como “enfeite para os olhos dos homens” em plenárias O que acham de fazer aborto num país em que isso é crime? O que acham de políticas como estuto do nascituro regendo nossos úteros? O que acham de a maior taxa de desemprego ser entre as mulheres superando em 43,5% a taxa de desemprego entre os homens? O que acham dos casos de assédio sexual já terem acontecidos com 52% das mulheres no mundo todo? O que acham do aborto ser a maior causa de mortalidade materna entre as mulheres? O que acham dos  2/3 das mulheres presas hoje são por tráfico de drogas? O que acham das 6 milhões de meninas no mundo todo estarem fora das escolas? O que acham do ambiente doméstico ser cerca de três vezes mais perigoso para as mulheres do que para os homens? O que acham de 28,4% das mulheres morrerem em casa? O que acham de 43,1% das mulheres no Brasil  terem sido vítimas da violência em sua própria residência? O que acham de, a cada 12 segundos que se passam no seu relógio, uma mulher ser estuprada no Brasil? O que acham dos 1.820 pontos de exploração sexual de crianças e adolescentes no país?  Para nós, mulheres, servir de papel para  um júri de homens medir nossa “militância” é aprofundar mais ainda todo essa tirania imposta a nós, e isso não tem nada de libertário, nada tem de agregador para a luta das mulheres, muito menos antiproibicionista, anticapitalista e contra-hegemônico.

Reforçar esses papéis, esses teatros com cortinas de fumaça que enevoam e não ressignificam a condição da mulher, é repetir o que se faz em larga escala no Brasil com os nossos corpos que são facilmente transformados em mercadoria, com valor de uso, de troca, com forma relativa, forma equivalente, fetichista, e todas as outras suas variáveis. Nada mais diferente do que a mídia que massifica, o sistema que homogeniza, e a sociedade que normatiza. Não tem nada de diferente, apenas reproduções, mais do mesmo, é so lembrar o que se faz às mulheres nas propagandas de cervejas, certo?

E, com a indagação posta ao fim do texto em que rebato, repito aqui “o que podemos produzir então para nossa luta?” E discordo com a colocação de que esses são “assuntos futuros”. Isso é um assunto presente, historicamente construído, impregnado nos nossos corpos, perpetuado constantemente, reproduzido em larga escala de opressão, de domesticação e dominação. Romper as amarras que prendem às mulheres a uma posição sexualizada, como se fosse esta naturalmente sua condição; a forma que nós somos representadas geralmente se concretiza na maneira como os homens nos veem e, dessa forma, o modo como eles esperam que nos comportemos.

O movimento antiproibicionista se apresentam com um claro projeto político: a superação da guerra às drogas, e do sistema que está imbricado nas suas relações com um claro recorte de classe e racial. É claro que esse projeto não se concretizará de maneira espontaneísta, sem atuação dos setores historicamente oprimidos na sociedade capitalista, e isso perpassa a construção de lutas conjuntas com outros movimentos, organizações políticas, que apontem para uma saída de suplantar a ordem social, política, e econômica vigente, ou , como diria Huxley, em Admirável Mundo Novo: “”A ditadura perfeita terá a aparência de democracia, uma prisão sem muros onde os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura, onde graças ao consumo e ao divertimento,  os escravos terão amor à sua escravidão” .

P.S.:  Outro texto que contribui enormemente ao debate é de autoria do Coletivo Dar – “Sexismo na marcha da maconha? Não em nosso nome!

*Isabela Bentes é mestranda em Sociologia pela UnB e membro do Setorial Política sobre Drogas do PSOL

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