Policiais da UPP Marista Méier matam criança de 11 anos com tiro de fuzil

Modelo - Foto do Blog do Cultura

por Coletivo Vinhetando

No dia em que se celebraria o aniversário de 12 anos de Patrick Ferreira de Queiroz, sua família está reunida no cemitério do Catumbi, para velar e enterrar o corpo do menino, morto com três tiros por policiais militares da UPP Camarista Méier, na quinta-feira. A morte do menino de 11 anos foi registrada como “resistência com morte do opositor”, ou “auto de resistência”, já que os policiais alegam ter agido em legítima defesa. a tragédia de Patrick junta-se às centenas de vítimas de ações letais da polícia militar, que, no ano passado, matou 544 pessoas no estado, entre janeiro e novembro – a maior alta nesses casos desde 2011, quando foram mortos 526 civis.

A alta nos “autos de resistência” mostra que houve aumento no excesso do uso da força policial, mesmo depois das UPPs. Para se ter uma ideia da desproporção entre a força policial e suas vítimas, no mesmo período de 2014, foram mortos 16 policiais no estado, numa correlação de 34 civis mortos para cada agente. A narrativa padrão de que os policiais teriam revidado a uma “injusta agressão” de traficantes, atirando em legítima defesa, repete-se mais uma vez no caso de Patrick. Os pms alegam que o menino portava uma pistola 9mm. No entanto, a perícia de local não encontrou cápsulas de balas de pistola 9mm, o que contradiz a versão de confronto.

E, pior, testemunhas teriam visto o menino sendo executado pelas costas. Em entrevista ao jornal “O Dia”, uma prima de Patrick contou que vizinhos viram a polícia agindo com crueldade: “deram um tiro e ele caiu sentado. quando chegaram perto, os PMs deram os outros tiros pelas costas”. O pai do menino disse ter sido ameaçado pelos policiais da UPP: “os policiais disseram que, se eu desse mais um passo, eu também ficaria estirado no chão igual a ele”.

Ameaças por parte de policiais envolvidos em supostos “autos de resistência” tem se tornado ainda mais comum depois de instaladas as UPPs, já que os policiais respondem aos inquéritos em liberdade e voltam a patrulhar as mesmas áreas dias depois, intimidando testemunhas e familiares. Se as ameaças já aconteciam antes das UPPs, quando as incursões em comunidades eram pontuais, agora pioraram, conforme relatos de familiares de vítimas da violência policial.

Outro fator que costuma contribuir para que esses casos não sejam investigados com o rigor e a independência necessários é que o inquérito de um “auto de resistência” não vai para a divisão de homicídios, ao contrário de todos os demais assassinatos, ficando a cargo da delegacia da área – no caso de Patrick, a 25ª DP (Engenho Novo). Conforme constatado em pesquisas acadêmicas, policiais civis costumam adotar uma postura de coleguismo com os policiais militares investigados, contribuindo para que a versão policial de legítima defesa prevaleça e o caso seja arquivado.

Mais uma vez, no caso do menino Patrick, toda a discussão a respeito da morte, na mídia e na polícia, está focada na construção de que o morto seria um “criminoso”, e, por isso, a polícia teria legitimidade para matá-lo. mas, em vez disso, o trabalho policial deveria estar sempre orientado a elucidar as circunstâncias da morte, independentemente de quem era o morto. desta vez, há fortes indícios de que Patrick foi executado, e espera-se que a polícia civil, o ministério público e a justiça não deixem que mais uma vez a versão policial saia vitoriosa e os PMs envolvidos continuem nas ruas.

*Dados do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, divulgados no dia 30 de dezembro de 2014, disponíveis no site: http://goo.gl/los23s

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