Um ano de Cultura Verde

Há um ano atrás, o Coletivo Cultura Verde teve a ousadia de afirmar que “está brotando uma nova cultura pelo mundo” em nossa Iª Tese  ao Congresso Estudantil da UFF. No mesmo momento em que sinalizamos ao movimento estudantil a intenção de organizar a primeira Marcha da Maconha da cidade, construímos relação com o movimento pela legalização e colocamos a cara a tapa para debater com estudantes na UFF e nos encontros de área. De lá pra cá, muita coisa avançou e não fosse nossa perspectiva de extrapolar os muros da UFF ao debater a legalização, não teríamos a oportunidade de dialogar com tanta gente em Niterói. O Cultura Verde, durante esse ano, apostou na construção de um coletivo mais amplo ligado a organização da Marcha da Maconha Brasil na cidade, com a participação de novos companheiros/as, como os do blog “Legalize o Boldo”, do “Falcatrua”, da “Bicicletada de Niterói”. Organizamos um dos atos mais cheios da cidade, uma Marcha divertida e pacífica que interagiu com a população de forma positiva e levantou lá no alto a bandeira pela legalização.

Ao longo do processo de organização da Marcha, o coletivo mais amplo garantiu ainda a “1ª Semana Verde de Niterói”, que contou com juízes, delegado, neurocientista, entre outros especialistas no tema . Além da formação dos militantes e do debate com os niteroienses, o espaço também propiciou a oportunidade de debater com a presidenta do Conselho Municipal Anti-drogas, uma ativista no movimento contrário a legalização, e com membros da LEAP Brasil, um movimento mais ligado ao anti-proibicionismo para além da maconha. Hoje podemos afirmar que fizemos nossa parte para brotar por aqui uma nova perspectiva para a política de drogas no Brasil.

O Cultura Verde nasceu com o debate sobre a autonomia e sobre as escolhas que fazemos, nossa posição é contrária a proibição e o uso aparato repressor do Estado como política pública de Estado. A proibição cria, na verdade, uma situação oposta ao controle do Estado e a regulamentação legal. A exemplo da proibição da maconha que só tem aumentado o mercado ilegal do tráfico e, com isso, fortalecido o controle armado dos territórios mais marginalizados como as favelas. O comércio ilegal também não distingue maiores de idade, vende sem distinção drogas pesadas e leves no mesmo lugar, não passa por nenhum teste de qualidade.

Desde nosso início, temos nos colocado como um coletivo anti-proibicionista com clara intenção de se organizar pra além da Marcha da Maconha. Devemos cumprir o papel de manifestar e se organizar nesses espaços, mas também de aprofundar o debate sobre a proibição em si. Nesse processo de um ano, percebemos que a proibição à maconha não existe pelos malefícios do uso dessa substância. A legislação penal tem sido usada como ferramenta de controle da população e criminalização da pobreza, em via de regra de forma racista e preconceituosa. Ao mesmo tempo que legitima a violência estatal, principalmente em favelas, e gera corrupção nas instituições policiais.

Nosso coletivo tem se posicionado somente pela legalização da maconha, mas sabemos da importância de debater a proibição contra todas as drogas. A guerra às drogas, em maior ou menor grau, causam conseqüências parecidas com a proibição da maconha: o aumento do uso do crack por populações marginalizadas, o desrespeito à soberania de países considerados “produtores” e à pessoa humana.

Não podemos também deixar pra trás debates que travamos no último ano e que precisam ser retomados. Entre eles, a organização dentro do movimento estudantil da UFF e nossa cobrança de DCE e CA’s mais atuantes na discussão sobre a legalização da maconha; nossas demandas de espaços mais verdes na universidade e na cidade; e a questão do transporte público por ciclovias que podemos tocar em conjunto com a “Bicicletada de Niterói”. Precisamos também intervir e incentivar mais a discussão acadêmica da questão das drogas, seja enquanto estudantes ou nas situações profissionais de nossa área de atuação. A UFF é uma das maiores universidades federais do país, tem professores que discutem a questão das drogas e podem ser de ajuda valiosa no debate que travamos.

Fortalecer o Cultura Verde como espaço de organização de um movimento anti-proibicionista com clara intenção de aprofundar o debate pra além da Marcha da Maconha não significa desconstruir o coletivo amplo de Niterói. Ao contrário, a intenção é qualificar e fortalecer nossa intervenção na Marcha e criar espaço pra outros coletivos e atores participarem da organização dela. O Cultura Verde deve ter mais autonomia pra intervir nacionalmente, seja em encontros estudantis ou junto a outros coletivos pela legalização, sem que isso comprometa a autonomia da Marcha da Maconha de Niterói e suas limitações temáticas: ou seja, atuar pela legalização da maconha exclusivamente e atuar territorialmente em Niterói. O acúmulo que obtivemos nesse último ano nos permite contribuir mais na Marcha de Niterói, na Marcha do Rio, nacionalmente, mas também nos permite colaborar mais com discussão acadêmica e na construção com outros coletivos, como o Princípio Ativo e o Coletivo DAR, e outros movimentos, como o MLM – Mov. pela Leg. da Maconha ou a LEAP Brasil. O coletivo também participou da ocupação da reitoria da UFF “Maria Clenilda e Manuel Gutierrez” e inclusive apontou para a importância do movimento estudantil debater mais sobre a legalização e política de drogas. Ciclovia inter-campi e bandejão vegetariano foram outras duas pautas antigas do coletivo e que conseguimos conquistar nessa ocupação. Agora temos um papel importante de fazer com que essas conquistas saiam do papel contribuindo assim para uma UFF mais VERDE